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Bloco de notas


 

Medo é um sentimento tão subjetivo que não consigo, nunca fui capaz, de associar a alguma coisa que pudesse tocar.

Não sinto medo de agulhas, mas da doença.

Não tenho medo de ficar sozinha, mas de não ter com quem contar.

Não tenho medo das pessoas, mas de suas intenções.

Tenho medo de ratos. Mas não os bichos que correm nos esgotos. Os que me aparecem nos sonhos, imensos, com cara de gente, correndo atrás de mim.

Aos 6, 7, aprendi a nadar. Fui lançada na água e não tinha onde me agarrar. Fui até o fundo e empurrei o chão, impulsionando pra respirar. Aprendi uma técnica, mas não cedi ao medo. Nem aos que tentaram me impressionar.

Aos 9 anos era a primeira, da fila de meninos e meninas de todas as idades, a invadir a mata fechada. Nem cobras, nem cipó-de-fogo, nem espinhos, nem capivara. O meu medo silenciava diante da possibilidade de encontrar saci, espíritos da floresta que se esgueiravam por trás das árvores. É verdade, sentia o som da respiração. Minha e deles. Subia nos galhos mais altos das azeitoneiras, furava o pé, ralava o joelho e recebia o sal puro como remédio.

Mergulhava até nas poças que se formam em determinado trecho de riachos e igarapés, nas quais o fundo parece um tapete de lodo verdinho e lugar certo de bichos esquisitos.  Mas tinha medo da chegada da noite, a incerteza da volta, muitas crianças, um pai embriagado e cantando boleros antigos. Gosto de boleros antigos.

Aos 14, ajudava a empurrar um Maverick da garagem até a rua (uma distância de 45 metros) em parceria com meu irmão para enfrentarmos, num sábado à noite, uma cidade movimentada e o som das discotecas. Nessa ocasião meu medo era de reprovar de ano. E reprovei.

Aos 17 conheci e enfrentei o mar. Fui além da arrebentação, nadei sob chuva e céu cinzento, sozinha, mar aberto. Voltei tranqüila porque o meu medo mesmo era de ir embora daquele paraíso.

Aos 21, 22, 23 os medos foram tantos que não ouso descrever. Só lembro que nesse período parti pelo mundo em boléias de caminhões que me levaram do Rio de Janeiro à Bahia, de São Paulo a Floripa, de Curitiba ao Rio. Na estrada conheci Dona Maria, “o sol na cabeça”. Na estrada conheci olhares maldosos e eu me sentia encorajada, sem um tiquinho de medo, protegida por um punhal de madeira escura feito pelos índios Karitiana. Nunca precisei usar, mas ele estava lá.

No Rio, onde morei, circulava bem à vontade pelos trajetos que escolhi naquela cidade maluca. Da Gávea ao Irajá, do Estácio à Barra, de Laranjeiras a São Cristóvão. Do Passeio a pé passando pela Glória até o Flamengo, até Laranjeiras. De carona ia parar em Lumiar, fazendo amizades pelo caminhos. Pessoas estranhas amedrontadoras, mas que não me assustavam em nada.

Com medo de encarar a sufocante cidade-redoma vim parar no Acre. Estrada afora eu vim bem sozinha. Medo mesmo só “de o cipó agarrar no meu tornozelo e eu não conseguir mais sair”. Essa situação estranha eu consigo visualizar, mas nunca o medo de aprender termos médicos e discutir em pé de igualdade com quem estudou uns 8 anos. Enfrentar dias sem dormir, fome, cansaço em nome de amor maior. Medo que eu tenho só coração de mãe entende.

Ah, sim, ia me esquecendo. Quando apanhava, podia doer o quanto fosse, não chorava. Mas me acabava em lágrimas quando a Narizinho voltava toda feliz pro Sítio depois de uma “aventura”.  Sã e salva. 

 



Escrito por Golby às 17h18
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